No calor de um subúrbio carioca, um garoto cresce em meio a partidas de futebol, conversas sobre terreiros e o passado de seu pai, um médico na década de 1970. Na adolescência, ele recebe em casa um menino apadrinhado de seu pai, que morre tempos depois num episódio de agressão. O garoto cresce e esse passado o assombra diariamente, ditando os rumos de sua vida. Essa história, aparentemente banal, e desenvolvida com maestria ficcional e grandeza quase machadiana por Victor Heringer. Dono de uma prosa fluente e maleável, além de uma visão derrisória da vida, o autor demonstra pleno domínio na construção de cenas e personagens. E emociona o leitor com sua delicada percepção da realidade.
De todas as formas, o primeiro
amor é pra sempre, ele é um marco que vai definir os seus próximos relacionamentos
ou a falta deles. É a primeira experiência (em alguns casos, a única) com
esse sentimento que preenche a alma de medo e felicidade. A leitura de O Amor
dos Homens Avulsos estava sendo bem tranquila, mas nada avassaladora até que eu topei com esse trecho e a partir daí, meus caros amigos, eu soube que seria
mais um dos livros que levo no peito.
E medo, um medo que só seria sanado se de repente eu e ele, muito mais que siameses, virássemos uma coisa só. Um troço. Dois braços, duas pernas, pelos, fedentina de menino, pele café com leite, cara de deus egípcio, um pênis, cabeça de cachorro. O monstro que pesa o coração dos homens depois que morrem.
A história é majoritariamente
sobre o amor, não só do seu surgimento, mas como o mesmo define o caráter e o
destino de uma pessoa. Estamos no auge da ditadura militar, anos 70, em um
bairro com cara de esquecimento no subúrbio do rio de janeiro mora Camilo . Pela
visão dele entendemos que sua mãe tem problemas emocionais e que seu pai tem um
quê de loucura. Também estamos no presente, com um Camilo adulto, vivendo um resto de vida, conformando-se com o inexorável destino até que se vê diante de uma ferida do passado que insiste em reabrir.
Heringer tem uma escrita que
brinca com o experimental, vez ou outra nos tirando da linearidade da história.
Nós estamos sempre cientes de que é uma pessoa contando a sua vida, e por isso
existem vais e voltas como se ele estivesse sentado na nossa frente, relembrando um fato. Há um tom de naturalidade muito bem empregado,
principalmente em relação a coisa mais bonita da história: o romance de Cosmim
e Camilo.
É a partir desse amor entre os
dois meninos que conflitos e tramas se definirão. O autor faz uma linda
colagens de lembranças de fatos e objetos que o protagonista resgata para
reconstruir aquela fase de descobertas. Talvez uma das relações mais bem
escritas que eu já vi.
Como é absurdo tentar escrever o Cosme, as coisas do Cosme, as falas do Cosme, as caras que o Cosme fazia.
Os personagens são feitos a
semelhança daqueles que nós vemos pegando o ônibus todo dia, o que, a medida que
vamos lendo, nos faz perguntar quantos desconhecidos não estão com traumas tão
profundos atrás de máscaras de naturalidade? Quantas questões não resolvidas não
há? Terminei o livro com uma sensação quase melancólica, mas de certa forma boa
de que algo para alguém, mesmo que ficcional, se resolveu.
Quando estava lendo Da Poesia, vi
que quem fez o posfácio foi o Victor Heringer, logo me animei pensando que logo
leria um livro desse autor. Fui procurar mais um pouco e qual não foi minha
surpresa ao descobrir que ele morreu esse ano aos 29 anos. Ao terminar esse
livro, não pude deixar de relacionar essa morte prematura com esse trecho
Ou, se não menos hediondo, um pouco mais variado. Li uma vez num poema que nós "somos bonecos de lava endurecida/ e é com lágrima que nos amoldam". O poema se chama "Chicago, 1999", um homem-salário lembra que no país dele tem vulcões. É o tipo de coisa que a gente esquece mesmo, pensa o homem do poema, até que um deles entra em erupção.
Deixo esse textinho que me fez refletir sobre essa perda.
Esse livro foi cedido gentilmente pela editora ❤❤❤
AUTOR(A): Victor Heringer
PÁGINAS: 160
EDITORA: Companhia das Letras
LANÇAMENTO: 2016
ONDE COMPRAR: Aqui




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